Brasileiros tendem a empreender mais de uma vez Estudo revela que Brasil está na média mundial de negócios descontinuados, ou seja, empresas que continuam ativas mesmo com outra forma de atuação ou proprietário Regina Xeyla Brasília - No Brasil, não se pode dizer que o simples fato do empresário ter optado por investir numa outra atividade significa que ele tenha necessariamente fechado as portas do seu antigo empreendimento. Ou seja, o fato de um negócio ter sido descontinuado não significa fracasso da empresa e do empresário. Esse é um mito que, segundo o estudo Global Entrepreneurship Monitor GEM de 2007, lançado nesta quarta-feira (19), em São Paulo, tende a ser desfeito. No Brasil, em 31% dos casos que o empreendedor afirma que deixou de atuar em um empreendimento, o mesmo continua em operação ainda após a saída do empreendedor. Nos demais casos, o negócio é efetivamente encerrado. Esse percentual é bastante próximo do registrado na média mundial (33%), em que aproximadamente um terço dos empreendimentos continuou ativo, mesmo que com outra forma de atuação ou proprietário diferente. De acordo com o diretor-presidente do Instituto Brasileiro da Qualidade e Produtividade (IBQP), Carlos Artur Krüger Passos, além dessa alta proporção de sobrevivência do empresário e do negócio, após a ‘separação’, outro fator que chama atenção nessa questão da descontinuidade “é o conseqüente aumento do número de empreendedores no País, já que a pessoa que assumiu a direção do negócio também pode ser considerada um novo empreendedor”. A pesquisa questionou os empresários sobre a principal razão que os teria levado a deixar de exercer a atividade empreendedora, independente do negócio ter continuado ou não. Dentre as alternativas apresentadas, dois terços dos empreendedores indicaram como principais motivos as situações relacionadas a problemas econômicos do empreendimento, como a baixa lucratividade do negócio, e a dificuldade do empreendedor em obter recursos financeiros para desenvolvimento do negócio. Vale destacar que a oportunidade de vender o negócio é mencionada por menos de 1% dos entrevistados que descontinuaram uma atividade empreendedora. No mundo, esse percentual atinge 6,1%. Outro aspecto que chama atenção é o percentual de indivíduos que se retiram de um empreendimento por motivo de aposentadoria. No Brasil, esse valor fica pouco abaixo de 1%, enquanto na média dos países participantes esse valor é de 8,2%. A pesquisa GEM 2007 buscou também conhecer o comportamento empreendedor pregresso dos entrevistados. Assim, é possível constatar que 31% da população adulta brasileira possuem no seu histórico algum envolvimento em atividade empreendedora, seja no momento atual, como empreendedor em estágio inicial (que está em fase de implantação do negócio), ou estabelecido (já o mantém por até 42 meses). Analisando-se separadamente empreendedores em estágio inicial, estabelecidos e não-empreendedores - aqueles que no momento presente não exercem atividade de cunho empreendedor, nota-se a existência, em meio à dinâmica brasileira, de um ator social até então não conhecido, o 'empreendedor em série'. Entre os empreendedores em estágio inicial (15 milhões), 27% são empreendedores em série, portanto, já estiveram à frente de algum outro empreendimento antes da atual atividade empreendedora. Essa proporção cai para 18% entre os empreendedores estabelecidos (12 milhões). Educação e capacitação Independente do estágio ou motivação (oportunidade e necessidade), a maioria dos empreendedores (58%) afirmou não ter tido orientação para a abertura de seus negócios. Contudo é relevante frisar que os empreendedores por oportunidade (8 milhões), assim como na edição passada da GEM, demonstram mais interesse em buscar orientações (45,3%) que aqueles que empreendem por necessidade (6,3 milhões), 37,5%. Em relação à orientação que tiveram ou esperam receber, grande parte destaca o processo de fabricação de produto e serviço (36,4%), sendo que para os empreendedores novos esse apoio é avaliado como extremamente importante. Outra orientação relevante para os empreendedores novos é o apoio técnico às atividades comerciais (22,1%). Já para os empreendimentos nascentes, os procedimentos necessários para a abertura da empresa (12,7%) e para a análise de custos e a formação de preços (9,9%) são itens fundamentais para se iniciarem novos empreendimentos. Ademais, para os empreendedores por oportunidade, o apoio para a captação de recursos (6,9%), bem como a assessoria em gestão de recursos humanos (4%), contábil (6,9%) e jurídica (5%), também são avaliados como itens importantes para o estímulo à manutenção dos negócios numa fase inicial. O item processo de fabricação do produto/serviço (24,8%) também lidera o ranking entre as empresas motivadas por oportunidade, seguido de técnicas e vendas (10,9%). Apesar de existir institutos e agências, no âmbito nacional, que procuram fomentar o surgimento de novos negócios, a maioria dos empreendedores ainda conta com o auxílio de familiares para tal finalidade (35%). Em seguida, vem o Sebrae (14%). Demais alternativas para subsidiar as atividades empreendedoras são os cursos profissionalizantes (11%) e o contato com pessoas experientes na área (7%). Em relação ao contato com o mercado de atuação do novo negócio, para os empreendedores iniciais e novos (55,8%), a maioria não tinha experiência anterior. Já os empreendedores nascentes (56,6%) e estabelecidos (52,6%) demonstraram já ter experiência anterior. Em termos de motivação, os empreendedores por oportunidade, na sua grande parte, abrem empreendimentos a partir da experiência que possuem (51,4%), enquanto os empreendedores por necessidade são menos experientes (45,2%). Estudo detalhado Agora em 2008, o estudo GEM comemora dez anos de pesquisa ininterrupta sobre a atividade empreendedora e sua comparação com os mais de 50 países que já participaram do projeto desde sua criação. Como inovação, este ano, a equipe internacional, deverá lançar o GEM Cities Project. Trata-se de uma publicação anual que trará dados comparativos das principais cidades dos países participantes do GEM. De acordo com a pesquisadora do IBQP, Simara Greco, este projeto ainda está em fase de estudo-piloto e adotará o mesmo modelo do GEM Global. A proposta é avaliar de forma comparativa o empreendedorismo nas regiões metropolitanas. “É uma iniciativa que pretendemos participar no decorrer ainda deste ano. Desde o início do nosso envolvimento no projeto GEM, temos argumentado sobre a importância de desdobrar os estudos no âmbito de regiões ou estados, uma vez que programas de apoio à atividade empreendedora devem ser adequados às características e necessidades locais”, afirma Simara.